2005/05/25

Institua-se o folclore para combater a crise



Sinto que os portugueses estão deprimidos por causa do défice, algo que não se vê mas que se sente na conta bancária ou na carteira (quando o dinheiro desaparece e fica apenas o suficiente para caber numa carteira). Estávamos de tanga com o Durão Barroso, e foram pedidos sacrifícios. De rompante eis que chega o Santana Lopes. Com ele pensámos que as finanças já estávam equilibradas e que por isso o PSD ía colocar no poder um homem "sempre em festa", habituado a gastar muito e mal. Mas, estávamos enganados. Os problemas que determinaram o défice continuaram e devem mesmo ter-se agravado.
Agora, já em tons rosa, voltam a pedir à classe média e média baixa para que pague o despesismo da função pública, a falta de capacidade dos sucessivos governos para captar investimento e aumentar o poder de compra. Os pobres continuam a ser pobres, uma vez que, sem oportunidades para uma verdadeira inserção social, vão aproveitando as migalhas relacionadas com o rendimento mínimo, e as ajudas caridosas que proliferam daqui e dalí. Quem vai pagar "o pato" serão mesmo as famílias socialmente integradas, as que vivem sem carências estruturantes, mas sem capacidade para amealhar um único cêntimo, ou as que guardam o pouco que sobra para viajar, comprar livros, música, alargando os seus horizontes culturais e pessoais. Desta forma, e de uma forma geral, vamos emburrecendo o cidadão português, dessincentivando a sua progressão como pessoa, afastando-o cada vez mais dos níveis de vida dos outros Europeus.

Cada vez há mais incerteza no trabalho


A incerteza no futuro, em coisas concretas como: vou perder o meu emprego, ou, será que tenho hipóteses de ter mais um filho? é preocupante. Se na função pública os ordenados são certos mas sempre atacados em tempo de crise, o que dizer da perspectiva do privado, onde as empresas podem de um momento para o outro fechar, após uma agonia de meses ou até de anos.

Quando leio observações de economístas que garantem que: Atacar o défice até pode agravar o défice estrutural, já que agrava a situação económica", e penso nos impostos mais pesados que vou ter que pagar, fico com a certeza de que o meu esforço não vai servir para absolutamente nada.

Felizmente temos o futebol para distrair as atenções, já que, com umas cervejas bem tiradas e um pires de caracóis o povo anda satisfeito, bastando para isso que ganhe o clube do coração. Quanto às férias que se aproximam, sempre podemos voltar aos parques de campismo da Costa da Caparica que, apesar de cheios, têm sempre lugar para mais um veraneante.

Estamos cada vez mais chegados aos nossos "irmãos" brasileiros. Não tivesse o fado uma melodia tão triste, e seria uma realidade já assustadoramente semelhante. De resto, os ricos são muito ricos, os pobres são muito pobres, e a classe média é inexistente. O futuro será medíocre para os que se situam na base da pirâmide.

folclore para todos

Tendo em conta as ideias contrárias dos economistas, que não se entendem quanto às medidas a adoptar para resolver o problema do défice, proponho a seguinte medida para resolver a crise das finanças do estado português: instituir o folclore como canção nacional e obrigar toda a gente a bailar, sob pena de serem considerados indivíduos que"lesam a pátria", obstruidores do desenvolvimento. Efectivamente não há necessidade de "mexer" em nada nas finanças públicas, nem obrigar os portugueses a pagar mais impostos. Vamos deixar tudo como está porque é um mal menor. Vamos aprender a bailar.

2005/05/14

Do alto dos seus 1,92 m



Uma esfera lisa, luzidia, cheia de altos e baixos, mas altamente posicionada, fez a diferença no jogo com o Sporting. Aquele Senhor com nariz de águia, queixada de cantor de rock americano, que se acha herói nacional por ter marcado o golo que eliminou a Inglaterra no Europeu, saltou, mas não chegou. Queria ludibriar o árbrito dizendo que foi impedido de agarrar a bola, mas o árbitro não acredita em heróis nacionais com pés de barro, e fez o seu dever.
O Grande Luisão, com o seu ar tosco, fez surgir na cara de milhões de pessoas um sorriso que custou a desaparecer. A euforia, exagerada é certo, porque o campeonato ainda não é do Benfica, saiu às ruas em todo o país porque, afinal, pode-se festejar hoje e para a próxima semana também.
Quanto ao Sporting, que ganhe a Taça UEFA. Eles pensávam que a sorte iria estar sempre do seu lado, mas assim não foi. Na final da UEFA, todos os portugueses deverão desejar que a sorte esteja do lado do Sporting, ainda que jogue menos. É justo que assim seja, é uma equipa portuguesa. Sejamos facciosos, mas não intolerantes.
Para já, VIVA O BENFICA (sem grandes euforias, porque isto não é demasiado importante)

2005/04/12

O Ego

Serão poucas as palavras que querem dizer tanto.
Tu enches o meu ego, quero que continues, mas não te quero necessáriamente. Fica perto de mim, alimenta-me, eu preciso de ti, mas não me sufoques, não exijas demais. Se vais embora tenho que te substituir, se não conseguir luto para te ter de volta, confundo-te, jogo contigo, minto-te, porque preciso que enchas o meu ego.
Como um aquário cheio de água e peixes, contrastando com um aquário vazio, com manchas de cloro e sujidade, sem vida. Gosto de ti mas não te quero necessáriamente.
Umas palavras bonitas podem ser suficientes para encher o ego de pessoas sensíveis, frágeis, mas se não houver continuidade no "doce", e as palavras não derem lugar a actos concretos, servem de muito pouco. A queda de quem espera a palavra amiga, reconfortante, que a ganha e pouco depois a perde, é grande.
Os que dão a amizade e a retiram de repente, sem mais, devem repensar a força do seu caracter. Quanto mais depressa enchemos o ego, com mais facilidade ele se esvaneia.
Apostamos nas relações sinceras, é o melhor

2005/03/29

Neste reino não há tolerância

Ao longo dos tempos fomos domesticando alguns animais, para que se comportassem segundo as nossas normas, a nosso belo prazer, originado verdadeiras mutações nas espécies, concretamente nos gatos e nos cães. Os concuros de felinos e caninos são um belíssimo exemplo da obediência cega destes animais, e da paciência que demonstram em troca de um carinho e de um boneco de plástico que chia. Todos os espécimes estão, obviamente, bem alimentados, e gosto de pensar que são bem tratados apesar dos exageros a que são submetidos durante os treinos, para que vençam os concuros e deêm a vã glória aos donos. Que figura ridicula são obrigados a fazer, que espectáculo degradante, muitras vezes. Apesar da boa alimentação que conseguem alcançar, e de ouvirem vezes sem conta a palavra "boa", ou a frase "que cãozinho bonito", talvez não possam ser considerados os animais mais felizes do mundo, porque, afinal, aquelas "poses engraçadas" e os penteados altivos e extravagantes, ou achatados e até de franja, não enriquecem ou dignificam ninguém, e muito menos estes animais que não podem defender-se.

A alimentação



Há algumas dezenas de anos, os gatos alimentavam-se nos caixotes do lixo às portas das casas das pessoas, rasgavam os sacos e metiam o focinho na comida e nas latas mal despejadas, que continham um pouco de feijoada à transmontana, ou espinhas de carapaus que o nosso estômago não tritura, cascas de fruta e de queijo. Aos cães eram-lhes dados ossos com pedaços de carne crua agarrados, gentilmente lançados por talhantes com bom coração: "Toma lá, e desaparece".
Com o surgimento dos contentores deixou de haver possibilidades para estes animais continuarem a alimentar-se desta forma, só possível nas pequenas aldeias e nas cidades de então. Agora, só os mendigos e os socialmente excluidos, tentam arranjar algo que preste dentro destes grandes recipientes que guardam temporariamente o que não queremos que cheire mal nas nossas casas.
Quem não se lembra da "carroça" que levava os cães para os canis, para serem abatidos, quase desaparecendo das ruas. O coxo, o zarolho e o sarnento não tiveram qualquer hipótese. O mesmo acontece com os mendigos ou com os drogados, mas esses não os podemos abater. Queremos sim que vão para outro lado, de preferência longe, na rua de alguém que não a nossa, à porta de outros. Muitos animais foram entretanto recolhidos para viverem em prédios, dentro das casas, para dormirem com os donos. Começaram a ser alimentados com os restos das comidas sendo que, posteriormente, começaram a circular histórias que revelavam que a carne era cozida de propósito com arroz ou massa a acompanhar.
Ao mercado chegaram as comidas em lata, os pacotes com biscoitos e a comida seca. Os estômagos dos animais foram ficando mais sensiveis, menos tolerantes e, num ápice, transformámos o cão e o gato para sempre. Se dermos chocolate, ou comidas condimentadas aos cães, por exemplo, no dia seguinte eles podem ter que fazer uma visita ao veterinário.

A luta pelos espaços abertos


As cidades foram crescendo, os espaços abertos, os jardins, foram deminuindo e agora todos querem aproveitar os poucos "pontos verdejantes" que existem. Os pais querem brincar com os filhos na relva do jardim porque não têm praças e jardins infantis suficientes perto das suas casas. E, obviamente, os animais querem andar na relva, na terra, junto da natureza onde pertencem. O dilema é sério, e a solução só pode passar por regulamentar o uso destes espaços. Alguns terão que ser interditos a cães porque os seus dejectos, tal como os nossos, podem provocar doenças se lhe tocarmos e levarmos as mãos à boca, os outros poderão ser usufruidos pelos animais, por direito próprio, sem que sejam apedrejados ou que os seus donos sejam insultados.
O mesmo se passa com os dejectos nas ruas. Vamos olhar de lado para quem não apanha os dejectos dos seus animais, vamos chamar a atenção dos que não cumprem as regras de convivência saudável. Só a vergonha pode superar o nojo.

E as almas caridosas? A ignorância...

Para concluir deixo apenas uma referência às almas caridosas que criticam os esforços feitos para ajudar os animais, dizendo que essas verbas deveriam ser canalizadas para a ajuda às crianças. O humilde agachado, incompetente e ignóbil prefere sempre descarregar a sua ira nos mais fracos e dar um pontapé no cão do que enfrentar o chefe. Esse é o perfil de quem não sabe a importância de preservar as espécies, de respeitar os animais.
O dever social que temos para com as crianças, seres desprotegidos, é extremamente importante e devemos alargá-lo a outras classes afectadas pelo desamparo: os idosos, os portadores de deficiência, os doentes. Esta nossa missão é imprescindível, mas nada obsta que possamos compreender os animais e tratá-los bem. Seremos certamente pessoas melhores, mais conscientes, claramente mais inteligentes.

2005/03/23

O poder da concentração

Que graça! Falava com uma amiga há dias e ela dizia-me: Consigo ficar uma hora ou mais, apenas a olhar para o tecto branco do meu quarto. É importante que seja branco. E eu perguntei: E em que pensas? "No meu corpo, respondeu-me. Oiço as batidas do coração, sinto uma ou outra dor nas costas e uma pequena picada num pé, de vez em quando. Sinto falta deste tempo de inércia, em plena sintonia com o meu corpo".
Muitas pessoas tentam estar horas sem pensar em nada, esvaziando o pensamento, mas se calhar são poucos os que se dedicam a ouvir o interior do corpo. Já fiz a experiência. Gostei. Não há melhor prova de vida. Estamos cá e sentimos sempre qualquer coisa diferente quando nos concentramos a valer.
Aconselho.

2004/09/24

Estados de espírito

A palavra espírito é controversa por significar algo mistico, incorpóreo. O espírito será a alma e esta é independente do corpo e eterna. Até os católicos devem ter dificuldades em acreditar nisto. Porém, proponho que imaginemos um cenário quase delirante em que o espírito existe de facto, tem vontade própria e não augura nada de bom. Se tivermos em conta a forma como nos sentimos nos dias depressivos, podemos até pensar que existe algo místico que nos puxa para algo sinistro e mau, que vai cavalgando mais e mais, até que uma boa noite de sono ou uma alegria inesperada nos resgata das trevas destruidoras. Uma espécie de luz pouco viva, mas suficientemente brilhante para a seguirmos.

O sentimento mais forte

Quando exploramos a alegria não sentimos que vamos ficando mais e mais alegres com o passar dos minutos ou das horas, mas, ao contrário, a tristeza ou depressão é um sentimento muito forte, talvez mais forte que o amor ou o ódio.
Os depressivos podem ser capazes de fazer coisas geniais porque, quando estão tristes, muito tristes, o cérebro parece transmitir quantidades de informações inimagináveis. Por isso há a necessidade de o controlar...

Vivam as depressões que conseguimos derrotar

Só os pouco dotados intelectualmente, ou os simples, aqueles que pouco ligam ao facto de estarem vivos, apenas esses nunca tiveram uma depressão, uns valentes dias cinzentos em que nada parece ter sentido. Quando a ideia primeira é mudar tudo para depois não se mudar nada.
Salvo os casos de desvios comportamentais que denunciam, mais do que depressões, deformações no "espírito". Estas pequenas tristezas que por vezes nos vêm assolar a "alma" são salutar, para que percebamos o prazer de dias muito bons, quando nos sentimos tão bem, capazes de tudo enfrentar.
Tudo faz parte desta passagem para a margem do silencio.





2004/09/18

O romantismo não sobreviveu

No início do século XIX, o romantismo, como escola de escritores com estilo poético e com o sentimento à flor da pele, praticamente deixou de ter expressão na plenitude que se conheceu em autores de setecentos e oitocentos. Estávamos perante a narração novelesca, a mistura de géneros e de estilos que davam um ar sério e descritivo de situações reais da sociedade de então, funcionando até como crítica, ou, por outro lado, seria a época encantada das expressões vivas, repletas de sentimento, de dramatismo que funcionava para o leitor, e ainda funciona para muitos, como uma tristeza tão grande, mas que grande alegria.

O termo romantismo foi facilmente transportado para a linguagem corrente, representando situações em que apaixonados trocam palavras de amor ou certos actos que mostram afecto junto da pessoa amada, precisamente inspirado na exuberância descritiva e emocionante das obras literárias e doutras formas de arte que emergiram em 1700.

Curiosamente, a palavra seguiu um caminho masculino aplicando-se essencialmemte aos homens, e foi servindo para definir as suas "investidas" junto das mulheres. Elas gostavam. Afinal, quem não gosta de ser bem tratado, apaparicado, fruto do interesse de alguém.

Por possuirem um temperamento mais emocional, as mulheres, e falo de uma forma geral, apreciam um homem romântico que, com regularidade, solicite a sua mão, o seu toque, o seu abraço, enfim, alguém que, denunciando prazer, queira agradar-nos de alguma forma com um gesto ou uma palavra. A vida em comum pode mudar da noite para o dia se a rudeza masculina for polida de vez em quando.

Não acredito em "caras metade" como tantas mulheres procuram e acabam por nunca encontrar. Os gostos dos outros não são iguais aos nossos, os defeitos, os tiques, os vícios são diferentes. A desilusão é a companheira do travesseiro.
A resposta está na tolerância usada até ao limite, e no romantismo, ainda que seja a fingir. Neste caso, fingir não altera o caracter ou a personalidade, ao contrário, faz com que os nossos hábitos sejam modificados para melhor no respeito pelo outro, facilitando alguns momentos de felicidade que geram outros momentos e que pode ser a diferença entre a vida e a morte da relação estabelecida.
Gosto de acreditar nisto, e não custa partilhar convosco. A partilha é um bem.

2004/09/11

Eça podia viver nos nossos dias

Vivi intensamente, página a página, as emoções de um livro que me prendeu como nenhum outro até então. Soube como nunca o que era dormir, porque tinha que ser, e acordar no outro dia a pensar na continuação da história, sofrendo com o protagonista a sua sorte. Sem mais suspense, abro o livro: refiro-me à obra prima de Eça de Queiroz chamada "A Capital".
O percurso de um jovem recém licenciado em Coimbra, mas oriundo do litoral norte do pais, ávido de experiências lascivas e de grandes glamoures que só a capital podia oferecer. A sua vontade ficou completamente indisciplinada, tomando conta de todo o seu ser, quando viu na estação de comboios uma linda mulher que partia para Lisboa. A procura desta mulher e as loucuras da capital dão o mote a esta história que, relativamente a comportamentos humanos, podia passar-se nos nossos dias.
O poder preverso do dinheiro, as amizades negociadas, compradas às claras e tão facilmente perdidas.
O que importa na realidade e o que aguenta um ser humano para fugir à interioridade, ocupando os seus dias como acredita que vale a pena, sentir que vive e que o tempo conta,nunca ter dias longos mas vazios.
No final do século XIX, Eça já sabia como era. As histórias repetem-se enquanto houver ingénuos e canalhas.

Agora leio "O Primo Basílio", do mesmo autor, mas num registo diferente, relata a história de um amor de época, aborda o preço da traição,e as eternas dúvidas sobre decisões que impliquem mudanças nas nossas vidas e nas vidas dos outros. O que perdemos, valerá a pena, o que ganhamos, terá sido a melhor escolha. A decisão imediata é apenas uma, o caminho de volta ao ponto de partida pode nunca ser encontrado.
Viva o Eça que me preenche a alma.

2004/08/24

Concursos Públicos na Função Pública. Uma palhaçada

Apresentar uma candidatura a um concurso público na função pública para preencher um qualquer lugar é uma verdadeira palhaçada. Com excepção de certos tipos de oferta de trabalho, a tudo o resto é difícil ter acesso de forma livre e em igualdade de oportunidades. Passo a explicar.Imaginemos um jovem, chamemos-lhe Luís, à procura de um emprego conforme a licenciatura que tirou. Após muito procurar e ante a dificuldade conhecida em arranjar emprego, vê num jornal nacional (os concurso públicos são obrigatoriamente publicados em jornal de tiragem nacional)uma oportunidade numa Cãmara Municipal para técnico superior em arquitectura. Fica entusiasmado e resolve concorrer. Estuda a legislação indicada e que nada tem a ver com o conteúdo do seu curso ou de outros, mas adiante, e passa à prova escrita. Repara que na sala estão dezenas de pessoas oriundas da área geográfica daquele Município e arredores. Feita a prova, chegam as notas e o Luís teve a nota mais elevada (17).
Seguem-se momentos de grande satisfação, embalado(a) na esperança pensa na sua inteligência e na forma em como superou os outros. Agora falta apenas a entrevista e nada pode falhar.

Chega o dia da entrevista

No dia da entrevista Luís veste o seu melhor fato, ruma à Cãmara Municipal onde será entrevistado por um Vereador e pela Chefe de Divisão dos Recursos Humanos. As perguntas parecem-lhe normais, diga os motivos que o levaram a concorrer ao lugar, a experiência profissional e, claro, quais as expectativas futuras. O Luís mostrou confiança, as respostas pareceram-lhe adequadas e saiu com um sorriso.
Quatro semanas depois recebe o resultado final, iria saber se a vaga era sua. Abriu nervosamente o envelope com a sorte ditada e a desilusão fechou-lhe o rosto. Uma tal Joana ficara em 1º lugar tendo em conta a prova escrita, a entrevista e o curriculo. Mas como era possível, pensou, esta Joana tivera apenas (14) na prova, e pela sua idade não poderia ter um curriculo imenso e interessante.
Ele continuaria, até ver, a engrossar a lista de desempregados.


A culpa é do "sistema"

Na verdade, é mesmo assim que o "sistema" funciona. Não por culpa ou por qualquer tipo de ilegalidade cometida pelas Autarquias, mas porque a legislação para a função pública está assim feita.
Na grande maioria dos casos, a pessoa que fica com o lugar entrou na Câmara Municipal para estagiar, passou a contrato, e será essa pessoa a entrar nos quadros. Tudo o resto é uma autêntica palhaçada já que movimenta dezenas de pessoas,alguns vêm de longe, na esperança de conseguirem uma colocação definitiva, ou simplesmente um emprego. Mude-se a lei... Ou informem-se os candidatos que já existe uma pessoa que, por já estar em funções há cerca de três anos (estágio e contrato) tem prioridade relativamente aos outros, mesmo que tenha uma nota mais baixa (a não ser que seja um verdadeiro desastre).
Assim seria honesto, da maneira que está não o é. Se não é justo que a Joana saia do emprego por ter tido uma nota baixa numa prova sobre legislação, também não é correcto que dezenas de pessoas prestem provas e percam o seu tempo, já para não falar em ilusões e expectativas, não possuindo qualquer hipótese em concretizar o seu objectivo.
É um jogo viciado que legitima a contratação na função pública à conta da ingenuidade e da complacência de tantos concorrentes. As autarquias nada podem fazer, a lei obriga ao espectáculo.

Profissões difíceis de segurar

Mas nem com todas as profissões funciona assim. Segundo apurei, na função pública, concretamente nas Autarquias, há certos lugares nos quadros que não são fáceis de preencher: cantoneiros, pedreiros, jardineiros, mecânicos, entre outros. O problema prende-se essencialmente com os vencimentos auferidos e que correspondem a apenas um ordenado mínimo. A grande maioria dos habilitados nestas profissões consegue um lugar em empresas privadas e a ganhar mais. Ironia a ter em conta é que as Autarquias,por vezes, têm que gastar mais dinheiro a contratar pessoas para a limpeza, por exemplo, porque são obrigadas a recorrer à mão-de-obra dos privados devido à falta de pessoal por sua conta.

Por curiosidade e para terminar, fica esta nota: O lugar de coveiro é o mais dificil de preencher.

2004/08/21

"Donas de casa". Que bom.

O que faz na vida? É uma pergunta clássica, colocada banalmente em qualquer conversa de circunstância, mas que deixa muita gente atrapalhada, talvez impertigada, outros ficam envergonhados, e tantos outros soltam a lingua mentirosa.
Recentemente, enquanto fazia zapping pelos canais televisivos, ouvi uma apresentadora de televisão perguntar a uma senhora que tentava ganhar um concurso televisivo sobre cultura geral, o que fazia na vida, ou seja, qual era a sua profissão. A senhora disse que era "dona de casa". Na boca da apresentadora surgiu um sorriso de preplexidade e atreveu-se a afirmar, ha, então deve ter muito que fazer, a casa dá muito trabalho. Mas, no fundo, parecia pensar, esta não vai ganhar isto, só se as perguntas forem sobre feijões.

Também eu duvidei

Também eu não acreditei na mulher que imaginei viver entre 16 paredes, se a casa for de duas assoalhadas, mais cozinha e casa de banho, no meio das tarefas domésticas, que nunca acabam, e que acabam com a vontade de aprender algo mais que não seja ligar o canal na novela, para sentir a baforada de ar fresco que as novelas transmitem, porque ali, na novela, ninguém é "dona de casa", as senhoras têm criadas que ganham um ordenado para fazerem os trabalhos domésticos. A seguir saem dali e vão "curtir" para outro lado qualquer. Não há papeis de "donas de casa" nas novelas.

O conceito de "dona de casa" está claramente ultrapassado e deveria ser abolido da linguagem corrente. É um conceito machista, sem sentido, uma vez que, se formos ver em concreto, na grande maioria dos casos os donos das casas são os homens (chamados cabeça de casal desde o tempo da outra Senhora) ou mesmo o casal, cujos nomes aparecem numa escritura de compra e venda (o nome dele em primeiro lugar, claro).

O que faz na vida?

Quando ouvimos alguém responder à pergunta: o que faz na vida, com um sincero, sou dona de casa, pensamos, coitada, não tem estudos nenhuns, ou melhor, coitada, o marido não a deve deixar trabalhar.
Depois, existem ainda mulheres que respondem à pergunta, o que é que faz na vida, com a deprimente frase, ainda que dita de forma involuntária e quase sempre com voz timida e sumida, estou desempregada. É mau mas é sempre preferível ao pouco sonoro conjunto de lêtras que juntas dão: "Sou dona de casa" .

Este post não pretende desmerecer as "donas de casa", embora eu prefira sinceramente referir-me a estas pessoas como as "donas em casa".